O mal e o sofrimento no Islã: o caso de Gaza
Como o Islã explica o mal e o sofrimento? Reflexões sobre os acontecimentos em Gaza
Introdução
O mal e o sofrimento estão entre as questões mais profundas enfrentadas pela humanidade. Durante guerras, desastres e tragédias humanitárias, muitas pessoas perguntam: se Deus é Todo-Poderoso e Infinitamente Misericordioso, por que permite que inocentes sofram?
Essa pergunta torna-se ainda mais urgente diante do sofrimento de crianças, mulheres e civis em Gaza. Para algumas pessoas, essas tragédias podem provocar dúvidas sobre a existência, a justiça ou a misericórdia de Deus.
Mas a existência do sofrimento prova realmente que Deus não existe? Neste artigo, veremos como o Islã explica o mal e o sofrimento, o papel do livre-arbítrio, a natureza desta vida e a justiça perfeita que será estabelecida na Outra Vida.
O que é o problema do mal?
O chamado “problema do mal” é uma questão filosófica formulada da seguinte maneira:
Se Deus é Todo-Poderoso, Onisciente e Infinitamente Misericordioso, por que Ele permite a existência do mal e do sofrimento?
Muitos ateus consideram essa pergunta um de seus argumentos mais fortes contra a existência de Deus.
Entretanto, antes de aceitar essa conclusão, devemos fazer outra pergunta:
O fato de não compreendermos a sabedoria de Deus significa realmente que essa sabedoria não existe?
A existência do mal refuta a existência de Deus?
A resposta é não.
A existência do mal não refuta logicamente a existência do Criador.
Esse argumento baseia-se em uma suposição implícita: a de que o ser humano seria capaz de compreender plenamente todos os propósitos e toda a sabedoria divina. Assim, quando não consegue entender a razão de determinado acontecimento, conclui que essa razão simplesmente não existe.
Esse raciocínio, porém, é incorreto.
Imagine uma criança observando um cirurgião realizar uma operação dolorosa. Ela pode pensar que o médico está sendo cruel, enquanto os adultos sabem que aquela dor temporária é necessária para a cura.
Será que a ignorância da criança sobre o propósito da cirurgia torna o médico injusto?
Claro que não.
Da mesma forma, o conhecimento humano é extremamente limitado quando comparado ao conhecimento infinito de Deus.
Allah diz no Alcorão:
“Pode ser que detesteis algo que seja um bem para vós, e pode ser que ameis algo que seja um mal para vós. Allah sabe, enquanto vós não sabeis.”
(Alcorão 2:216)
Este mundo não é o Paraíso
Um dos princípios fundamentais do Islã é que esta vida terrena constitui uma morada de provação, e não a morada da recompensa definitiva.
Allah diz:
“Aquele que criou a morte e a vida para vos pôr à prova e ver qual de vós pratica as melhores obras.”
Quran.com(Alcorão 67:2)
Se este mundo não conhecesse doença, pobreza, guerras, morte ou sofrimento, deixaria de ser um lugar de prova. A paciência, a coragem, a justiça, a generosidade e a fé não teriam oportunidade de se manifestar.
Segundo o Islã, a justiça perfeita não será plenamente realizada nesta vida, mas sim na Outra Vida.
O livre-arbítrio humano é a origem de grande parte do mal
Allah criou o ser humano concedendo-lhe o livre-arbítrio. Enviou mensageiros e revelou Sua orientação para mostrar o caminho do bem e o caminho do mal.
Allah diz:
“Nós lhe mostramos o caminho, seja ele agradecido ou ingrato.”
Quran.com(Alcorão 76:3)
Se Deus impedisse todo ato de injustiça antes que ele acontecesse, o livre-arbítrio perderia completamente o seu significado.
As guerras, os assassinatos, a opressão e as injustiças não são ordens de Deus. Na maioria das vezes, são consequência das escolhas dos próprios seres humanos, que responderão por elas diante d’Ele.
Por que Deus não pune imediatamente os opressores?
Algumas pessoas perguntam:
Por que Deus não destrói imediatamente todo opressor?
O Islã responde que Deus pode conceder um prazo aos injustos, mas jamais os negligencia.
Allah diz:
“Não penses que Allah está desatento ao que fazem os injustos.”
(Alcorão 14:42)
O Profeta Muhammad ﷺ disse:
“Allah concede um prazo ao injusto, mas, quando o toma, ele não poderá escapar.”
Sunnah.com(Relatado autenticamente por Al-Bukhari e Muslim.)
O fato de o castigo ser adiado não significa que a justiça esteja ausente. Esse adiamento pode fazer parte de uma sabedoria conhecida apenas por Allah, enquanto a justiça perfeita será plenamente realizada na Outra Vida.
E quanto às crianças e aos inocentes?
Esta é uma das perguntas mais difíceis e emocionantes.
O Islã ensina que Allah jamais é injusto com qualquer pessoa.
Allah diz:
“Em verdade, Allah não é injusto com ninguém; são as próprias pessoas que cometem injustiça contra si mesmas.”
(Alcorão 10:44)
Os muçulmanos acreditam que as crianças que morrem antes de atingir a idade da responsabilidade religiosa entrarão no Paraíso, e que nenhum de seus direitos será perdido diante de Allah. Sua misericórdia e Sua justiça abrangem plenamente essas crianças.
Esta vida terrena não é o fim. Ela é apenas uma etapa antes da vida eterna, onde a justiça perfeita será plenamente estabelecida.
Como o Islã vê o que está acontecendo em Gaza?
O sofrimento vivido pelos civis em Gaza — mortes, destruição, deslocamentos forçados e imensas dificuldades — constitui uma profunda tragédia humanitária que exige compaixão, súplicas sinceras e esforços legítimos para ajudar as vítimas e apoiar os oprimidos.
Segundo a perspectiva islâmica:
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Matar pessoas inocentes é proibido.
-
A injustiça é proibida.
-
Atacar civis é proibido.
-
Ajudar quem está em necessidade é uma das obras mais meritórias.
Ao mesmo tempo, o Islã não considera essas tragédias como uma prova da inexistência de Deus. Pelo contrário, distingue claramente entre:
-
As ações dos seres humanos, resultantes da injustiça e do mau uso do livre-arbítrio.
-
A sabedoria divina, que o ser humano nem sempre consegue compreender plenamente.
A existência da injustiça não significa que Deus a aprove, assim como a existência do crime não significa que a lei o permita.
Toda provação é um castigo divino?
Não necessariamente.
Os profetas — os melhores entre os seres humanos — foram aqueles que enfrentaram as provações mais difíceis.
O Profeta Muhammad ﷺ disse:
“As pessoas mais severamente provadas são os profetas; depois aqueles que mais se assemelham a eles; e, em seguida, aqueles que mais se lhes assemelham.”
(Relatado por At-Tirmidhi e considerado autêntico pelos estudiosos.)
Assim, uma provação pode ser:
-
Um teste.
-
Um meio de elevar a posição espiritual da pessoa.
-
Uma expiação pelos pecados.
-
Uma prova de fé.
-
Ou fazer parte de uma sabedoria conhecida somente por Allah.
Por isso, jamais se deve afirmar que toda calamidade constitui um castigo divino.
O ser humano pode compreender toda a sabedoria de Deus?
A razão é uma imensa bênção concedida por Allah, mas continua sendo limitada.
O ser humano possui apenas uma pequena parte do conhecimento.
Allah diz:
“E não vos foi concedido senão um pouco de conhecimento.”
(Alcorão 17:85)
Portanto, o fato de não compreendermos a sabedoria divina não significa que ela não exista.
O que o Islã pede aos crentes diante das tragédias?
O Islã não ensina a passividade. Pelo contrário, une a fé à ação.
O muçulmano é chamado a:
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Suplicar a Allah pelos oprimidos.
-
Ajudar os necessitados dentro de suas possibilidades.
-
Defender a justiça por meios legítimos.
-
Rejeitar toda forma de injustiça, independentemente de quem a pratique.
-
Demonstrar paciência, mantendo plena confiança na perfeita justiça de Allah.
Allah diz:
“Ajudai-vos mutuamente na bondade e na piedade.”
(Alcorão 5:2)
Respostas às objeções mais frequentes
Se Deus é Todo-Poderoso, por que não impede todo o mal?
Porque esta vida é uma prova. O livre-arbítrio só tem verdadeiro significado quando o ser humano é realmente capaz de escolher entre o bem e o mal. Quanto à justiça absoluta, ela será plenamente realizada na Outra Vida.
Por que as crianças sofrem?
O Islã ensina que as crianças jamais são responsabilizadas pelos pecados de outras pessoas. Allah é mais misericordioso com elas do que seus próprios pais. Aqueles que morrem antes de atingir a idade da responsabilidade religiosa entrarão no Paraíso sem prestar contas.
O sofrimento significa que Deus não ama Seus servos?
Não.
Os profetas e os crentes mais virtuosos foram justamente aqueles que enfrentaram as maiores provações. Essas dificuldades serviram para elevar sua posição diante de Allah, e não como sinal de Sua ira.
A razão humana pode compreender plenamente os atos de Deus?
Não.
A razão humana pode compreender parte da sabedoria divina, mas jamais será capaz de abranger todo o conhecimento infinito de Allah.
Conclusão
A questão do mal e do sofrimento está entre as perguntas filosóficas mais antigas e profundas da humanidade.
O Islã oferece uma visão coerente que harmoniza a justiça e a infinita misericórdia de Allah com a realidade das provações desta vida. Ele nos lembra que este mundo não é nosso destino definitivo, mas apenas uma etapa temporária antes do Dia do Juízo, quando a justiça perfeita será estabelecida para todos.
O que está acontecendo em Gaza, assim como outras tragédias humanas ao redor do mundo, lembra-nos do dever de demonstrar compaixão pelos oprimidos, rejeitar toda injustiça e defender a justiça por meios legítimos.
Ao mesmo tempo, esses acontecimentos fortalecem a convicção do crente de que nenhum direito se perde diante de Allah, de que Sua justiça jamais falha e de que a sabedoria que hoje não conseguimos compreender será plenamente revelada quando toda a humanidade comparecer diante do Senhor dos Mundos.
Perguntas Frequentes (FAQ)
A existência do mal prova que Deus não existe?
Não.
A existência do mal não refuta logicamente a existência de Deus. Ela levanta uma questão sobre a sabedoria divina, e o Islã ensina que a sabedoria de Allah é perfeita, mesmo quando o ser humano não consegue compreendê-la plenamente.
Por que Deus não impede as guerras?
Porque esta vida é uma prova. Allah concedeu aos seres humanos o livre-arbítrio, e cada pessoa será responsabilizada por suas próprias ações.
Toda tragédia é um castigo divino?
Não.
Uma provação pode ser um teste, uma elevação espiritual, uma expiação dos pecados ou fazer parte de uma sabedoria conhecida apenas por Allah.
Como o Islã vê o sofrimento dos inocentes?
O Islã o encara com compaixão e justiça. Proíbe rigorosamente qualquer agressão contra pessoas inocentes e ensina que Allah jamais é injusto com alguém. Toda injustiça será reparada no Dia do Juízo.
O que um muçulmano deve fazer diante das tragédias?
O muçulmano deve suplicar a Allah pelas vítimas, ajudá-las sempre que possível, defender a justiça, rejeitar toda forma de opressão e depositar sua confiança na perfeita sabedoria e justiça de Allah.
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