Louvado seja Allah, e que a paz e as bênçãos estejam sobre o Mensageiro de Allah. Dito isso:
O amor natural pela esposa, pelos filhos, pela comida, pelos bens e por coisas semelhantes faz parte da natureza com a qual Allah criou o ser humano. Ele não representa uma deficiência no amor por Allah, nem é exigido do muçulmano que o elimine. A perfeição consiste em que o amor por Allah, o Altíssimo, seja o amor supremo que governa todos os outros tipos de amor, de modo que a pessoa não dê preferência a algo que ama sobre aquilo que Allah ama e aprova.
Primeiro: O amor não é de um único tipo
O amor possui diferentes tipos e graus. Entre os mais importantes estão:
Este último tipo não é, por si só, uma forma de adoração nem é repreensível enquanto permanecer dentro dos limites permitidos.
Allah criou no ser humano essas inclinações por grandes sabedorias e benefícios. O amor pela comida contribui para preservar o corpo; o amor entre os cônjuges contribui para a continuidade da família e da descendência; e o amor pelos filhos está relacionado à misericórdia, ao cuidado e à educação.
Segundo: A perfeição não consiste em eliminar o amor natural
Não é correto dizer que a perfeição da servidão a Allah exige arrancar do coração o amor natural, nem que uma pessoa deva amar sua esposa e seus filhos apenas como simples meios de chegar a Allah.
Foi o próprio Allah que colocou afeição e misericórdia entre os cônjuges. Ele diz:
“E entre Seus sinais está que Ele criou para vós, de vós mesmos, esposas para que encontreis tranquilidade junto delas, e colocou entre vós afeição e misericórdia.”
[Ar-Rum: 21]
Assim, a afeição natural entre os cônjuges é algo que Allah colocou entre Seus sinais, e não algo que a pessoa deva eliminar.
O Profeta ﷺ também amou sua família, seus Companheiros e algumas das coisas boas deste mundo. Está autenticamente relatado que, quando lhe perguntaram:
“Qual pessoa é mais amada por ti?” Ele respondeu: “Aishah.”
[Relatado por Al-Bukhari e Muslim]
Isso demonstra claramente que o amor natural não entra em conflito com a perfeição da servidão a Allah.
Terceiro: Quando o amor natural é elogiável ou repreensível?
O amor natural pode assumir três situações:
A primeira: Quando ajuda na obediência a Allah
Por exemplo, uma pessoa ama sua esposa, trata-a bem e protege tanto a si mesma quanto a ela do que é proibido; ou ama seus filhos e, por isso, cuida de sua educação e lhes ensina o bem.
Esse amor pode tornar-se uma fonte de recompensa quando acompanhado de uma boa intenção.
A segunda: Quando é apenas uma inclinação natural permitida
Por exemplo, uma pessoa pode gostar de determinado alimento ou amar naturalmente sua família por causa do afeto e da convivência, sem pretender com isso uma forma específica de adoração.
Esse amor é permitido. A pessoa não comete pecado por causa dele nem é obrigada a eliminá-lo.
A terceira: Quando compete com o amor por Allah
Nesse caso, o amor se torna repreensível, como quando o amor pelos bens, pela esposa ou pelos filhos leva uma pessoa a abandonar uma obrigação ou cometer algo proibido.
Allah, o Altíssimo, diz:
“Ó vós que credes! Que nem vossos bens nem vossos filhos vos distraiam da lembrança de Allah. E quem fizer isso, esses serão os perdedores.”
[Al-Munafiqun: 9]
A censura aqui não é pelo simples amor aos bens ou aos filhos, mas porque esse amor se tornou uma causa de distração da obediência a Allah.
Quarto: Em que consiste a perfeição no amor?
A perfeição não está em eliminar o amor natural, mas em colocar corretamente em ordem aquilo que se ama.
O muçulmano ama naturalmente sua esposa, seus filhos, seus pais e seus amigos, mas, quando existe conflito, dá prioridade ao amor e à obediência a Allah e ao Seu Mensageiro.
Allah, o Altíssimo, diz:
“Dize: Se vossos pais, vossos filhos, vossos irmãos, vossas esposas, vossos parentes, os bens que adquiristes, o comércio cuja queda temeis e as moradias que vos agradam vos são mais amados que Allah, Seu Mensageiro e o esforço em Sua causa, então aguardai…”
[At-Tawbah: 24]
O versículo não proíbe amar a esposa, os filhos, os bens ou as moradias. Ele adverte contra dar preferência a esses amores sobre o amor por Allah e Seu Mensageiro.
Quinto: É melhor que o muçulmano transforme o amor natural em adoração?
Sim. Faz parte de um grau maior de perfeição tentar direcionar o amor natural para aquilo que agrada a Allah.
O amor pela esposa pode levar a tratá-la bem e cumprir seus direitos; o amor pelos filhos pode levar a educá-los, ter misericórdia deles e ensinar-lhes o bem; e o amor pelos bens pode levar a buscar ganhos lícitos, sustentar a família e dar caridade.
Dessa forma, o amor natural pode passar de algo meramente permitido para uma causa de recompensa.
Isso, porém, não significa que quem ama sua esposa simplesmente por afeto, beleza e boa companhia, ou ama seus filhos simplesmente pelo sentimento paternal, tenha uma fé deficiente ou seja repreensível.
Sexto: A pessoa não deve obrigar-se a eliminar sua natureza
A legislação islâmica não exige que alguém trate sua esposa e seus filhos como se fossem apenas meios impessoais para chegar a Allah, nem exige que combata todo sentimento natural em seu coração.
A Sharia veio para aperfeiçoar e orientar a natureza humana, não para eliminá-la.
O que se exige é que o amor natural permaneça sob a orientação da legislação islâmica. A pessoa pode amar, ter misericórdia, apreciar a companhia e sentir saudade, mas esses sentimentos não devem levá-la a desobedecer a Allah.
Conclusão
A perfeição do amor por Allah não consiste em eliminar o amor natural pela esposa, pelos filhos e por outras pessoas. Esse amor faz parte da natureza que Allah colocou no ser humano e, em sua origem, é permitido.
A perfeição consiste em:
Portanto, ame sua família naturalmente, tenha misericórdia dela, desfrute de sua companhia e trate-a bem. Faça com que o amor por Allah dirija e governe esses amores, e não que os elimine.
E Allah sabe mais.